quinta-feira, 30 de setembro de 2010

“Contexto e ambiente do Novo Testamento”




Resenha do livro


“Contexto e ambiente do Novo Testamento”


De EDUARD LOHSE



Introdução:




Eduard Lohse nasceu em Hamburgo, Alemanha, em 1924. De 1956 a 1971 trabalhou como professor do Novo Testamento em Kiel e na Universidade de Gotinga. Em 1971 foi nomeado bispo da Igreja luterana de Hanover.

Lohse apresenta uma exposição clara e concisa de suas convicções, estando sempre fundamentadas em criteriosa pesquisa histórica. Analisando todos os contextos (histórico, religioso, geográfico, político, econômico e social), ele coloca o seu leitor a par dos acontecimentos da época em que foram escritos os diversos livros bíblicos. A partir da análise histórica, o leitor adquire

condição para notar os detalhes que até então estavam ocultos, sem sentido e complicados.

O teor da obra de Lohse é nada menos do que o próprio título revela: “Contexto e Ambiente do Novo Testamento”. Como era de se esperar, o título reflete aquilo que a obra é como um todo. A partir de uma descrição minuciosa da história da Palestina e suas relações com outros povos, Lohse demonstra o que existe em torno de uma passagem bíblica. O livro é dividido em dois grandes blocos: o judaísmo no tempo do Novo Testamento e o ambiente helenístico-romano do Novo Testamento. O cristianismo surgiu dentre essas duas culturas: a judaica e a helenista. Nessa cultura

helenista está inclusa a influência romana que não se concentrou na cultura, mas sim, na economia, na política e na infra-estrutura.

A primeira parte da obra de Lohse, que no momento é o que nos interessa, mostra tudo àquilo que aconteceu durante o período de mais de 400 anos que separa, na Bíblia, a ultima página do livro de Malaquias da primeira página do Evangelho segundo Mateus. Esse período é chamado de período intertestamentário e foi nessa fase que se desenvolveram os grupos religiosos do judaísmo, o desenvolvimento da apocalíptica e se reforçou a esperança messiânica. O livro de Lohse em sua primeira parte mostra também, como o judaísmo se desenvolveu no tempo desde o cativeiro babilônico até a revolta de Bar Kosba. Esse estudo é importante para compreendermos os fatores originadores do cristianismo, e que o mesmo não surgiu do nada, sendo na verdade, o resultado de uma série de eventos consecutivos e cumulativos que ocorreram na história.



O desenrolar dos fatos:

Como os povos vizinhos, também os judeus sempre estiveram sob o domínio dos grandes impérios, que sucessivamente dominaram o Oriente Próximo. De vez em quando, permitiam aos pequenos povos levar uma vida independente, sem lhes criar obstáculos. Mas de tempos a tempos interferiam com violência. Tentando determinar sua forma de vida.



A história do judaísmo começa com o tempo do exílio babilônico. Os judeus levados para a terra alheia da Babilônia podiam ficar juntos e conservar sua fé no Deus de Israel. Impedidos de continuar o culto do templo permaneceram, porém, fiéis à lei do seu Deus. Após o fim do domínio babilônico, com a vitoria triunfal do rei persa Ciro, que com violentos ataques pôs fim ao reino neobabilônico, adotaram uma política diferente da dos seus antecessores, os assírios e babilônicos; não forçaram mudanças populacionais, nem exigiram o reconhecimento de uma única religião de Estado para todos, mas ligaram sua política à situação local e permitiram a continuação da vida tradicional dos povos.



Pouco tempo depois da conquista da Babilônia, o rei Ciro editou um decreto que dispunha sobre a reconstrução da “Casa de Deus” em Jerusalém e sobre a devolução dos seus instrumentos cultuais, se tirados do templo por Nabucodonosor (Esd 6,3-5).

Por encargo do “Grande Rei”, Esdras e Neemias chegaram um após o outro à Palestina para por em ordem a situação. Neemias se preocupou com a construção de uma muralha ao redor da cidade de Jerusalém. Esdras ensinou aos habitantes de Jerusalém a lei, promulgando-a em nome do rei. A lei de Israel tornou-se o direito comum persa para Jerusalém e a Judéia. Esses acontecimentos provocaram o desgosto e a inveja dos vizinhos e, especialmente, dos habitantes da Samaria que, não foram reconhecidos pelos judeus como verdadeiros israelitas. Essa separação e o grande favorecimento de Jerusalém pelo rei persa causaram entre os habitantes da Samaria um sentimento de amargura, que contribuiu para um crescente distanciamento entre norte e sul. Tal distanciamento acarretou finalmente, a separação política das províncias da Samaria e de Judéia.

Essa situação provocou neles o desejo de construir um santuário próprio, através do qual se tornariam independentes de Jerusalém. A separação entre judeus e samaritanos aconteceu depois da conclusão do Pentateuco e antes da definição dos limites canônicos das outras partes do Antigo Testamento.

No tempo em que os samaritanos obtiveram seu próprio santuário, reinava uma inimizade profunda entre eles e os judeus. Tal animosidade os levou a guerra. No ano 128 a.C., os judeus, sob o comando de João Hircano, destruíram o templo do monte Garizim.

No tempo de Jesus, judeus e samaritanos não se relacionavam (Jo 4,9). A palavra “samaritano” era utilizada como insulto contra pessoas consideradas loucas (Jo 8,48).

A comunidade cristã primitiva logo superou a separação existente entre judeus e samaritanos e levou o Evangelho para a Samaria (At 8,4-25).

Na batalha de Isso (333 a.C.), Alexandre Magno venceu o rei Dario III, abrindo-se com esta vitoria o caminho para o Egito, através da Síria e da Palestina.

A Judéia submeteu-se ao marechal Parmênio, sem tentar resistir. A Samaria, residência do governador persa, foi conquistada por Perdikkas e seus soldados.

Como os judeus se submeteram pacificamente, confirmaram-se os direitos, já obtidos sob o domínio persa, podendo continuar praticando seu culto livremente.

O comercio e a forma de vida dos gregos se difundiram por todo o país. Os povos do Oriente Próximo se abriram à influencia grega, às atitudes dos gregos, à sua cultura e herança espiritual. Os judeus da Palestina viveram, portanto, na vizinhança imediata de gregos que impuseram sua língua comum. Quem não sabia falá-la era considerado “bárbaro”. Muitos judeus aprenderam a língua dos estrangeiros, falada em todos os países atingidos pela marcha vitoriosa de Alexandre Magno.

Com a chegada do mundo helenístico, os judeus aprenderam a discutir da mesma maneira, investigando e esclarecendo a verdade da vontade divina na forma de um diálogo didático. Porem, a lei, transmitida pelos pais e antepassados, escrita na língua hebraica, obrigava a comunidade a conservar a fé antiga, a celebrar o culto segundo a lei de Moisés e a conscientizar-se da eleição de Israel como povo de Deus em meio a todos os povos.

Em conseqüência da morte prematura de Alexandre Magno, aos 33 anos de idade, seu império entrou em convulsões políticas. Como os generais do rei brigavam pela herança, quebrou-se a unidade do reino. O governador Ptolomeu, com resistência no Egito, ordenou a ocupação da Palestina e a colocou primeiro sob seu domínio.

Como os persas e Alexandre Magno, também os ptolomeus não interferiram nos assuntos internos da comunidade cultual de Jerusalém. A direção do povo judeu estava na mão do sumo sacerdote, que podia ordenar e administrar os interesses judaicos, com a aprovação do soberano helenístico.

Depois de uma primeira tentativa frustrada, o rei sírio, Antíoco III (223 – 187 a. C.), conseguiu tirar a Palestina das mãos dos egípcios, no final do terceiro século. Os ptolomeus tiveram que se retirar e deixar o país na mão dos sírios.

Os judeus, durante a luta, colocaram-se do lado dos sírios, por isso, eles trataram os judeus de maneira favorável e, aos direitos já obtidos foram acrescentados outros privilégios: as necessidades e os gastos do culto do templo deveriam ser cobertos até determinada soma pelos cofres do Estado, e se concedeu isenção de impostos aos membros do conselho de anciãos e aos escribas.

Essa situação amigável, porém, não havia de perdurar por muito tempo.

Quando, no ano 175 a. C., Antíoco IV assumiu o governo da Síria, Onias era sumo sacerdote em Jerusalém. Tinha porém, adversários no clero, sobretudo na pessoas do seu irmão Josua e entre os partidários da helenização. Josua helenizou seu nome, transformando-o em Jasão, e ofereceu aos sírios uma quantidade considerável de dinheiro, que devia ser arrecadada através de um aumento dos impostos. Também conseguiu a remoção de Onias do cargo e sua própria nomeação como sumo sacerdote. Embora Jasão ordenasse ministrar o culto no templo, conforme as prescrições da lei, não deixou de promover com toda a energia a continuação da helenização. Após três anos do governo sacerdotal de Jasão, um homem chamado Menelau ofereceu mais dinheiro do que Jasão. Menelau, então, foi nomeado sumo sacerdote em lugar de Jasão. O cargo de sumo sacerdote tornara-se objeto comercial da política.

Antíoco, em 169 a.C., quis encher seus cofres, vazios por causa das guerras, saqueando o templo de Jerusalém: os instrumentos preciosos do templo, o altar de incenso, o candelabro de sete braços e a mesa dos pães de oblação foram levados para Antioquia (1Mc 1,20-24).

Com a nova intervenção, a helenização devia ser completada a força, acabando com a vida própria da comunidade judaica. Os muros de Jerusalém foram derrubados, e na colina da antiga cidade de Davi se construiu uma fortaleza (Acra). Proibiu-se aos judeus, sob pena de morte, a observância do sábado, bem como a circuncisão dos seus filhos. Em Jerusalém, no lugar do altar dos holocaustos. Foi erigido um altar pagão para realização de sacrifícios ao Deus supremo, o Zeus olímpico (167 a.C.,). Também porcos foram oferecidos como sacrifício.

Para os judeus, a profanação significou o horror da devastação (cf. Dn 11,31; 12,11). Essas ocorrências acarretaram uma perigosa crise para o judaismo, cujo fim parecia estar próximo.

A chama da revolta contra o domínio estrangeiro acendeu-se por ocasião de um incidente na pequena aldeia de Modin, perto de Lidda. Os inspetores do rei chegaram também a esse lugarejo a fim de forçar os judeus a oferecer sacrifícios pagãos. Lá morava o velho sacerdote Matatias, chefe de uma família denominada “asmoneus”, conforme seu ancestral. Matatias matou um judeu, disposto a oferecer sacrifício no altar, bem como o funcionário real que pedira o sacrifício. Matatias e seus filhos precisaram fugir e retira-se para as montanhas de Judá (1Mc 2,15-28). Logo um grupo de judeus, dispostos a lutar, juntou-se a eles. Quando, pouco depois, morreu o velho sacerdote Matatias, seu filho Judas assumiu a liderança dos guerreiros. Este recebeu o apelido de “o macabeu”, que significa “aquele que é como um martelo”. Judas tornou-se guerreiro hábil, respeitado por seus amigos e temido por seus adversários. O rei Antíoco, mandou seu general Lísias para a Palestina. Judas obteve êxito contra ele. Venceu o sírio em vários combates, marchou vitorioso para Jerusalém, ocupou o santuário profanado e restaurou a veneração ao Deus de Israel, prescrita na Lei.

Muitos setores do povo judeu ficaram contentes com o resultado da luta de libertação dos macabeus, sobretudo porque, depois de algum tempo, o cargo de sumo sacerdote pôde ser ocupado de novo.

Judas morreu, no ano 160 a.C.. Sucedendo a Judas, seu irmão Jônatas tornou-se líder. Quando Jônatas foi assassinado em 143 a.C, através de um estratagema dos sírios, seu irmão Simão, o terceiro dos irmãos macabeus, assumiu a liderança na luta.

Sob o governo de Simão, os judeus viviam novamente em situação pacifica. As pessoas se sentiam aliviadas. Elogiavam o reinado de Simão, como tempo de paz e felicidade, e, a fama de seu nome chegou até o extremo da terra. Protegeu os pobres do seu povo, foi observante da Lei, e eliminou os apóstatas e perversos. Cobriu de esplendor o Templo e multiplicou seus utensílios sagrados. 1Mc 14,8-15).

O reinado de Simão terminou abruptamente quando o rei foi vitima de um atentado perpetrado por seu genro Ptolomeu. O assassino, porém, não conseguiu tomar o lugar de Simão. Ao contrário, o governo foi entregue ao filho deste, João Hírcano, conforme as decisões tomadas pelo povo no tempo de Simão.

Apesar de uma política bem sucedida nos empreendimentos guerreiros, hírcano encontrava pouca aceitação junto ao povo e entre os piedosos. Dos grupos de judeus fiéis a Lei, nasceu a comunidade dos fariseus. Originalmente, os asmoreus simpatizaram com eles; mais tarde, porém, começou um acentuado distanciamento.

Após a morte de Hírcano, seu filho Aristóbulo usurpou a regência. Aristóbulo comportava-se como os reis de pequenos Estados orientais e foi o primeiro governante judeu a atribuir-se o título de rei.

Depois de um curto reinado, Aristóbulo morreu em 103 a.C. Sua esposa, Salomé Alexandra, libertou da prisão aos irmãos do rei morto e entregou o governo ao mais velho, tornando-se sua esposa. O novo rei mudou seu nome Jônatas para o nome grego Janeu, chamando-se Alexandre Janeu. Segundo a tradição, em seu leito de morte Alexandre Janeu aconselhou sua esposa Salomé Alexandra a reconciliar-se com os fariseus. Após a morte do rei, ela assumiu o governo, e por nove anos o dirigiu com cautela e sabedoria (76-67 a.C.). a tradição farisaica elogia seu seu governo como um período pacífico e abençoado.

Quando Salomé Alexandra morreu no ano 67 a.C., devia sucede-la no trono seu filho Hírcano II. Mas seu irmão Aristóbulo começou a disputar com ele a dignidade real. Essa briga se transformou em um conflito armado em que os soldados de Aristóbulo se mostraram superiores aos de Hírcano. A dignidade de sumo sacerdote e de rei passaria para Aristóbulo. Porem, o poder superior de Roma se interpôs, determinando, a partir daí, o destino do Oriente Próximo e com isso também o da Palestina. Quando Pompeu se acercou com suas legiões, dissolveu-se o enfraquecido reino dos selêucidas, incorporando-se ao Império Romano como província “Síria”.

Pompeu entrou em Jerusalém e pisou no templo, vendo também o santíssimo. Todavia, não roubou nada do santuário e ordenou a retomada do culto quanto antes.

Aristóbulo e seus dois filhos, Alexandre e Antígono, foram levados presos para Roma. Hírcano retornou como sumo sacerdote.

Pouco tempo depois, Aristóbulo e seus filhos fugiram do cativeiro retornando para a Palestina e começaram a tramar contra o poder vigente, mas nada conseguiram.

Os violentos conflitos pelo poder no império Romano produziram também seus efeitos na Palestina. Na luta entre Pompeu e César, Hírcano e seus homens se encontravam sob o domínio de Pompeu, em cuja mão estava o leste do império. Tendo César saído vitorioso do conflito e Pompeu assassinado no Egito em 48 a.C., Hírcano e Antípatro conseguiram passar rápida e felizmente para o lado vitorioso.

César não somente renovou os direitos da comunidade cultural de Jerusalém, como também concedeu outros privilégios: de novo, anexou-se a cidade de Jope ao domínio do sumo sacerdote, Hírcano foi confirmado no seu cargo e nomeado etnarca e aliado dos romanos.

A judéia se libertou da obrigação de sustentar legiões romanas durante o inverno.

A partir daí, o judaísmo se encontrava sob a proteção do Estado romano.

Em virtude do assassinato de César (44 a.C.), novas convulsões sacudiram o império. Hírcano e Antípatro ficaram primeiro ao lado dos assassinos de César, cujo poder, porém, não durou muito tempo. Octaviano e Antônio venceram-nos na batalha de Filipi, em 42 a.C. após a vitória, Antônio assumiu o governo do leste do império, residindo em Alexandria com a rainha Cleópatra.

Antípatro tornou-se vitima de um atentado. Antonio confirmou Hírcano e os dois filhos de Antípatro nos seus cargos. Hírcano continuava como sumo sacerdote. Herodes e Fasael governavam o país.

Subitamente, a região foi invadida pelos partos, oriundos do Oriente. Os partos prenderam Hírcano e Fasael; Fasael se suicidou, e Hírcano foi entregue a Antígono, que assumiu o mandato de sumo sacerdote e rei, dominando por três anos. Eliminados Hírcano e Fasael restou somente Herodes, que fugiu para os romanos, procurando ajuda.

Herodes em 40 a.C., por decisão oficial do Senado, foi nomeado rei dos judeus, sendo primeiro rei sem terra, porque na Palestina se encontravam seus piores inimigos.

Em pouco tempo, os romanos expulsaram os partos da Síria. De lá, Herodes atacou a Palestina, com o apoio dos romanos. No ano 37 a.C., conseguiu ocupar Jerusalém e tomou posse do trono.

Herodes eliminou os adversários do seu regime e todos os considerados perigosos para seu governo. Não respeitou laços de amizade ou relações familiares. Herodes não era de descendência sacerdotal. Por isso, não podia tornar-se sumo sacerdote, por isso nomeou ao cargo um homem submisso a ele e depois transferiu o cargo a seu cunhado Aristóbulo. Um ano depois Aristóbulo foi assassinado no banho, as suspeitas recaíram sobre Herodes.

Por ciúme dos asmoneus, Herodes mandou matar sua esposa Mariamne e, tempos depois, também seus filhos Alexandre e Aristóbulo. O rei conservava a simpatia para com seu filho primogênito, Antípatro, mas, pouco antes de sua morte, mandou executa-lo como traidor. A suspeita determinava o agir de Herodes. Herodes estava sempre muito alerta a qualquer perigo que ameaçasse seu domínio e poder. Não hesitava em mandar assassinar qualquer pessoa que pudesse tornar-se perigo para ele. Por causa do regime linha dura e do terror com que suprimiu qualquer movimento de oposição, foi odiado pela maioria do povo.

No final do governo de Herodes, nasceram João Batista e Jesus de Nazaré (Mt 2,1; Lc 1,5). No testamento feito pelo rei, pouco antes de sua morte, repartiu seu reino entre seus três filhos Arquelau, Herodes Antipas e Filipe.

Antipas e Felipe foram nomeado tetrarcas, ou seja, pequenos príncipes. Arquelau não recebeu titulo de rei, mas somente um inferior, o de etnarca. Para o povo, essas diferenças de título nada significavam. Considerou os governantes como reis. Por isso, o Novo Testamento chama de reis Arquelau (Mt 2,22) e também Herodes Antipas (Mc 6,14.26; Mt 14,9).

Arquelau foi o mais odiado pela população. Governava com rigidez tão arbitrária e brutal, que seus súditos mandaram uma vez mais uma queixada a Augusto. O imperador atendeu às suas queixas e no ano 6 d.C., Arquelau foi destituído e exilado para a Gália. Seu domínio ficou na mão do governador romano, que ordenou e realizou um censo geral da população na Síria e na Palestina. Portanto, no tempo de Jesus, a Galiléia e o norte da Transjordania encontravam-se sob o domínio de príncipes judeus, enquanto a Samaria, a Judéia e a Iduméia eram governadas pelo procurador romano (Lc 3,1).

No tempo de Jesus, Pôncio Pilatos exerceu o cargo de procurador (26-36d.C.). Filo de Alexandria relata que sua administração consistia em “corrupção, violência, roubos, tortura, ofensas, continuas execuções sem processo, crueldade habitual e insuportável”.

Quando numa ocasião peregrinos Galileus quiseram sacrificar em Jerusalém, Pilatos ordenou uma matança sangrenta entre eles (Lc 13,1). Mandou prender e matar pessoas suspeitas de serem revolucionárias (Mc 15,7). Esse homem duro e sem escrúpulos certamente não tinha receio de, após um interrogatório sumário, sentenciar à morte na cruz um judeu, entregue pelo Sinédrio como pessoa politicamente suspeita. Assim, Jesus de Nazaré morreu fora de Jerusalém, submetido pelo procurador romano ao castigo mais vergonhoso que o mundo antigo conhecia.

Herodes Antipas governou a Galiléia entre 4 a.C., e 39 d.C. ele estava casado com a filha de um rei nabateu. Mais tarde, tomou Herodíades como sua mulher, esposa do seu meio-irmão, um Herodes pouco conhecido. Desta maneira, infringiu a Lei. Herodíades era neta do rei Herodes e de Mariamne e filha de Aristóbulo, executado, como sua mãe, por ordem de Herodes. Ele repudiou sua primeira esposa, deixando-a voltar para seu pai, no reino nabateu.

O casamento com Herodíades trouxe desgraça para Herodes Antipas. O rei dos nabateus, indignado, iniciou uma guerra contra seu antigo genro, derrotando-o completamente. A ambição de sua esposa Herodíades foi fatal para Herodes Antipas. Ela insistiu que ele se esforçasse junto ao imperador Calígula para conseguir sua investidura como rei. A tentativa do príncipe falhou. Calígula suspeitou de Herodes Antipas e o mandou para o exílio na Gália (39 d.C.).

Angripa, neto de Herodes, tinha passado muito tempo em Roma, mostrando-se suficientemente hábil para conseguir o favor de Calígula. Em 41 d.C., recebeu o governo da Judéia, da Samaria e da Iduméia, reunindo assim aob seu cetro todo o reino antigamente dominado por seu avô. Nesse tempo, a ameaça de um conflito de grande proporções pairou sobre o país. Querendo colocar sua estátua no Templo de Jerusalém, Calígula provocou forte reação dos judeus, que viram nisso o horror da devastação, erigido no lugar santo (Mc 13,14). Calígula foi assassinado repentinamente (41 d.C.). seu sucessor, Cláudio, não insistiu no culto divino de sua pessoa no Templo.

Herodes Agripa apresentava-se como judeu piedoso, cioso da fiel observância da Lei. Por isso, os escribas e fariseus o louvaram muito; ele agradava aos fariseus, perseguindo a comunidade cristã de Jerusalém. Mandou matar Tiago, filho de Zebedeu, e prender Pedro (At 12,1-3). Quando morreu, o governo não foi entregue a seu filho Agripa. Todo o país foi anexado à província séria. A administração foi assumida por um procurador romano, com residência em Cesaréia e submetido ao governo da Síria.

Alguns anos mais tarde, Agripa II recebeu o território anteriormente governado por Felipe. Agripa II também causou escândalo ao viver permanentemente na companhia de sua irmã Berenice (At 25,13). Conforme os boatos, tratava-se de uma relação incestuosa.

No país, cresceu o ódio contra os romanos, ocasionando continuas agitações.

A atitude brutal da ocupação romana levou a uma escalada de ódio entre a população judaica. Agripa tentou convencer os judeus do absurdo de uma revolta armada contra Roma. O sumo sacerdote, os círculos sacerdotais e também os fariseus exortaram a proceder com moderação. Mas já não era possível debelar o incêndio. Não mais se ofereceu o sacrifício diário pelo imperador romano, assinalando assim o inicio da revolta aberta. Diante do ímpeto da revolta a fortaleza Antonia também não resistiu. Foi tomada, ficando toda a cidade na mão dos judeus.

Os romanos, surpreendidos pelo rápido desenrolar dos acontecimentos, não mais dominavam a situação.

O imperador Nero encarregou Vespasiano, seu general mais capacitado a comandar a guerra contra os judeus. Vespasiano juntamente com seu filho Tito, aproximou-se com grandes contingentes de Antioquia. Tito trouxe tropas do Egito. O ataque dos romanos dirigiu-se primeiro contra a Galiléia, depois, após quarenta e sete dias de cerco, sucumbiu a resistência, exigindo os zelotas o suicídio de todos os defensores. Josefo rejeitou essa pretensão e foi suficientemente esperto para salvar-se. Entregou-se a Vespasiano, profetizando-lhe a obtenção da coroa imperial. Vespasiano deu-lhe a vida e Josefo ficou permanentemente no quartel general dos romanos. Assim. Ele se tornou testemunha ocular e historiador de toda a guerra judaica.

João de Cisala, líder dos zelotas, fugiu com um pequeno grupo para Jerusalém. No ano 67 d.C., toda Galiléia se encontrava de novo nas mãos dos romanos.

A guerra devia ser decidida em Jerusalém. Naquele tempo, a comunidade cristã primitiva, não participante da revolta, deve ter abandonado a cidade, dirigindo-se a Pella, na Transjordânia. No ano 69 d.C., Vespasiano foi proclamado imperador por seus soldados. Viajou para Roma, entregando a continuação da guerra a seu filho Tito. Durante a páscoa do ano 70 d.C., Tito aproximou-se com quatro legiões e tropas auxiliares bem equipadas, cercando Jerusalém com seus habitantes e peregrinos.

No discurso de Jesus sobre o juízo final, segundo o Evangelho de Lucas, fala-se dessa situação desesperada: “Quando vocês virem Jerusalém cercada de acampamentos, fiquem sabendo que a destruição dela esta próxima” (Lc 21,20). “Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti, te rodearão e te apertarão por todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra” (Lc 19,43ss). Guerrilheiros judaicos capturados foram crucificados pelos romanos. Erigiram-se cruzes em cima dos diques, ao redor da cidade, para assustar os defensores.

Os romanos quebraram os três anéis da muralha que cercava a cidade, avançando cada vez mais contra a resistência dos defensores. O templo foi devorado pelas chamas durante os últimos combates. Tito conseguiu entrar no santíssimo, pouco antes de seu desabamento. O candelabro de sete braços e a mesa dos Pães de oblação foram salvos como troféus, para serem levados ma marcha triunfal, de cuja memória o arco de Tito em Roma nos dá testemunho.

Devido à queda do Templo e da cidade, o judaísmo perdera seu centro visível.

O judaísmo era capaz de sobreviver a essa catástrofe terrível, porque possuía forças vitais suficientes, possibilitando-lhe novo começo. Os fariseus se ocuparam decididamente aos sacerdotes de orientação saducéia. Os saduceus, porem, foram mortos na destruição de Jerusalém. Por isso, o movimento farisaico, guiado por escribas, caracterizou a reconstrução das comunidades judaicas, dirigindo seu retorno e acolhimento após o desastre. Com a queda do Templo, findou-se o culto sacrificial. A adoração do Deus de Israel continuaria nas sinagogas, em cujo culto entraram partes da liturgia do Templo. Em Jâmnia, reuniu-se um novo Sinédrio, do qual não mais participaram sacerdotes e anciãos, mas somente escribas.

Nas ruínas de Jerusalém, construiu-se um templo para Júpiter. A nova cidade foi habitada somente por não judeus. O acesso dos judeus foi proibido.

Somente no séc. IV d.C. foram autorizados a entrar na cidade uma vez ao ano para relembrarem o fato da destruição junto ao muro das lamentações, o que sobrou do templo herodiano.



Considerações finais:

No decorrer de nosso trabalho, podemos averiguar que o território de Israel sempre esteve no centro das disputas políticas, econômicas, sociais e religiosas desde que se têm registros. Estas disputas, em determinado tempo se torna mais acentuada, e, por muitas vezes Israel se vê sob a dominação de outros povos. Podemos notar que a crença de Israel em um Deus, que lhes promete a posse da terra, é, o combustível que possibilita sua resistência durante os momentos de opressão; pois uma vez feita a promessa por seu Deus, esta tende a ser cumprida. É exatamente esta certeza de fé que propicia Israel constantemente se levantar das cinzas e lutar por sua identidade dentro da história.

Muitas dúvidas pairam ainda hoje, sobre a real história dos fatos ocorridos que levaram á formação de Israel, entretanto, não resta duvida nenhuma sobre a persistência deste povo, mesmo que sob o julgo dos opressores, em continuar mantendo viva sua cultura e historia indo contra tudo e contra todos, apoiados apenas na certeza de que seu Deus lhe dará a vitória. Assim sendo, podemos supor que possa realmente existir algo a mais, algo de divino na historia deste povo.

O mais gratificante em estudar Israel, talvez seja poder constatar que o Cristianismo traz consigo a extensão das promessas deste Deus que em Jesus Cristo, “JUDEU” nos adotou como um só povo, nos guiando a Jerusalém Celeste.

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