terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espiritualidade Mariana




Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte I

Escrever a respeito de espiritualidade mariana parece ser a mais fácil das tarefas. Afinal, como já afirmou o papa João Paulo II na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, citando o teólogo Von Balthasar: «A dimensão marial da Igreja antecede sua dimensão petrina» (n. 27, nota 55). Tal pensamento teológico foi assumido pelo Catecismo da Igreja Católica, que faz expressa referência à citação de João Paulo II, no número 773.

Poderíamos então extrair que, por preceder às demais como a alma das espiritualidades surgidas na história do cristianismo, a espiritualidade mariana traz em si todos os elementos contidos nas outras espiritualidades, de forma que o trabalho de identificação de uma autêntica espiritualidade mariana, em tese, não se apresenta como dos mais árduos.

Contudo, já se passaram dois milênios e os teólogos – desde Santo Irineu, bispo de Lyon (nascido por volta de 135-140), considerado o primeiro teólogo da Igreja, até o atual papa Bento XVI – ainda não conseguiram esgotar os elementos mariológicos presentes na espiritualidade cristã.

Por isso, discorrer a respeito da espiritualidade mariana no Documento de Aparecida representa, na verdade, um grande desafio.

Primeiro porque – como já restou delineado acima – sempre que se objetiva sistematizar a espiritualidade mariana, corre-se o risco de que os elementos de espiritualidade estudados apontem para um lugar comum a todas as espiritualidades.

Segundo, porque a época em que vivemos, de mudanças profundas e rápidas, acentua a complexidade do contexto sociocultural onde os componentes de espiritualidade se formam e se manifestam, os quais sofrem a influência das ideologias dos intérpretes da realidade social.

Demais disso, os elementos de espiritualidade que emergem do Documento de Aparecida apontam para o germinar de novas espiritualidades, frutos da diversificação da organização eclesial experimentada nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, dentre as quais merecem registro: a espiritualidade da comunhão (DA 181, 189, 307, 309, 316 e 368), já tratada por João Paulo II na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte; a espiritualidade popular (DA 259 e 263); a espiritualidade da missionariedade (DA 284 e 285); a espiritualidade do leigo (DA 209-214); a espiritualidade do serviço (DA 14, 32, 111, 162, 240, 272, 280, 289, 353, 358, 366, 412, 516, 517, 518).

Porém, não podemos ler o Documento de Aparecida sem considerarmos que o texto conclusivo foi produzido no santuário mariano dos mais visitados do mundo, tendo recebido no ano de 2007 mais de 8,5 milhões de pessoas, segundo a assessoria de imprensa do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Nesse contexto, não seria possível que os bispos e demais delegados da Conferência não estivessem em contato direto com os milhares de romeiros e sua religiosidade popular, ainda mais que muitos dos participantes ficaram hospedados em hotéis próximos à Basílica.

Daí porque o Documento de Aparecida também é rico em elementos que apontam para uma autêntica e histórica espiritualidade mariana. Histórica porque não se trata de uma espiritualidade imposta ou sistematizada a partir de reflexões teológicas, ou ainda, decorrente do exercício espiritual de algum santo ou de uma comunidade de religiosos, mas sim, de uma espiritualidade florescida espontaneamente no coração dos fiéis que aos poucos foi se arraigando na vida eclesial da comunidade cristã. E autêntica porque a V Conferência, reconhecendo o importante papel desempenhado pela religiosidade popular, ressalta a devoção mariana como aquela que «contribuiu para nos tornar mais conscientes de nossa comum condição de filhos de Deus e de nossa comum dignidade perante seus olhos, não obstante as diferenças sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo» (DA 37).

De forma simples e completa, o Documento de Aparecida sintetiza a espiritualidade mariana como aquela que estabelece para nós uma relação direta com Deus, com os irmãos e com as realidades que nos circunda, a partir de três importantes aspectos mariológicos: a maternidade, o discipulado e a missionariedade.

Nos próximos artigos a respeito do tema, procuraremos extrair do texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe os elementos que nos conduzam à percepção de que a espiritualidade mariana pode ser um meio eficaz para tornar cada um de nós em autêntico discípulo de Jesus e, a exemplo de Maria – cuja vida é paradigmática a todos os cristãos –, um missionário a serviço do Reino de Deus.

Esperamos, assim, colaborar para o crescimento espiritual das Congregações Marianas do Brasil, que têm na verdadeira devoção à Santíssima Virgem a principal fonte de sua espiritualidade, conforme estabelecem os números 14 a 19 da Regra de Vida.


Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte II

No artigo publicado na edição 3/2008 da Revista Estrela do Mar (parte I), procuramos expor, de forma introdutória, que o Documento de Aparecida contém inúmeros elementos que revelam uma espiritualidade mariana autêntica e fundada na história. E nos propusemos a apresentar, a partir desses traços característicos da espiritualidade mariana presentes no texto conclusivo da V Conferência do Episcopado Latino Americano e do Caribe, os fundamentos que nos conduzem à convicção de que a espiritualidade mariana, por estar na gênese de antigas e novas espiritualidades cristãs, será a grande expressão espiritual e religiosa que conduzirá o Povo de Deus «a Cristo, Senhor da vida, em quem se realiza a mais alta dignidade de nossa vocação humana» (DA 43).

Antes de adentrarmos na reflexão sobre os aspectos mariológicos de nossa relação com Deus, é necessário esclarecer que, ao falarmos de espiritualidade mariana, não estamos nos referindo à devoção mariana, tão presente na vida das Congregações Marianas do Brasil. Esta, a devoção, é uma expressão de nosso amor à Mãe de Deus, enquanto que a espiritualidade é um caminho, um itinerário a ser percorrido no seguimento de Jesus, em que Maria é o modelo, a inspiração.

Nesse sentido, o lugar e o valor de Maria na mística da evangelização libertadora foi acentuado pela espiritualidade mariana desenvolvida no Documento de Puebla (cf. 288, 292, 293).

Por vezes, os congregados marianos tendem a confundir a espiritualidade com a devoção. A exemplo podemos mencionar o texto do antigo Manual Devocionário do Congregado Mariano que, no capítulo X, discorre a respeito dos dois traços do perfil da Congregação Mariana: a Devoção Mariana (nºs 207-231) e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio (nºs 232-247). Sobre a devoção mariana o citado texto, embora não deixe de destacar o valor da consagração a Nossa Senhora, não aborda a espiritualidade sobre a qual repousa a devoção mariana, mas se limita a enfatizar as práticas devocionais, tais como a reza do Ofício e do Terço do Santo Rosário. Também no número 45 o documento dispõe que, por fidelidade aos «quatro séculos de espiritualidade mariana, veneramos Nossa Senhora com a maior devoção», sugerindo que nas práticas de veneração e devoção esteja contida a espiritualidade mariana.

Não se pode negar que tais práticas piedosas tenham «uma grande eficácia pastoral» e constituam «uma força renovadora dos costumes cristãos», conforme afirmou o Papa Paulo VI na conclusão da «Exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à Bem-aventurada Virgem Maria», de 2 de fevereiro de 1974. Contudo, não são suficientes para estabelecer uma autêntica espiritualidade mariana, a qual requer uma conformação ao projeto de Salvação. Temos que ir além, buscando viver no mundo para Cristo, com a mesma entrega de Maria. Para isso, somos convidados pelo Documento de Aparecida a descobrir e vivenciar a alma missionária e apostólica da discípula Maria, a Virgem de Nazaré, «diante do desespero de um mundo sem Deus» (DA 109).

Usando uma feliz expressão do Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, ex Assistente Eclesiástico Nacional das Congregações Marianas do Brasil, «Maria contradiz o desespero do mundo», permanecendo fiel à missão que lhe foi confiada pelo Pai e, por isso, tornando-se «o símbolo mais completo de nossa verdadeira esperança»(1), o que leva a própria Igreja a uma compreensão materna de si mesma.

Ou seja, a Igreja torna-se discípula, missionária e apostólica na mesma medida em que assume o discipulado, a missionariedade e o apostolado da Virgem de Nazaré que, conforme declaram os bispos reunidos na V Conferência, «é a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo». Essa imagem, lembram-nos os bispos da América, «recorda-nos que a beleza do ser humano está toda no vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa liberdade está na resposta positiva que lhe damos» (DA 141). É a «máxima realização da existência cristã como um viver trinitário de “filhos no Filho”» (DA 266).

Dessa forma, sendo a Trindade o ponto de referência para a espiritualidade cristã, o Documento de Aparecida nos apresenta uma das características mais marcantes da espiritualidade mariana: a trinitária. Sendo Maria uma obra total de Deus, foi a escolhida para, antes de todos nós, vivenciar a espiritualidade trinitária do encontro com Jesus Cristo, gerado em seu ventre materno. Por isso mesmo, a espiritualidade mariana deve nos levar, como partícipes da natureza divina de Cristo (cf. 2 Pd 1,4), a participar da «vida trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a vida eterna» (DA 348).

É sob este prisma do amor trinitário que devemos olhar para Maria, a Mãe Santíssima da Igreja, «modelo e paradigma da humanidade» (DA 268), e com Ela aprendermos também nós a sermos construtores de um mundo melhor e renovado, a morada de Deus, com a consciência de que a «vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna» (DA 110).

A partir de tais reflexões, à luz das conclusões da V Conferência do Episcopado Latino Americano e do Caribe, devemos indagar, queridos irmãos e irmãs, que gestos concretos estamos dispostos a realizar para que melhoremos o estilo de nossa espiritualidade mariana e, seguindo o exemplo de Maria, sejamos protagonistas da comunhão que gera vida?


Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte III

No segundo artigo a respeito da espiritualidade mariana no Documento de Aparecida, publicado na edição 4/2008 da Revista Estrela do Mar, afirmamos que o cristão deve olhar para Maria Santíssima sob o prisma do amor trinitário, sendo este um dos aspectos mais marcantes da espiritualidade mariana.

E não poderia ser diferente.

Maria é apresentada pelo Documento de Aparecida como «modelo e paradigma da humanidade» e «artífice de comunhão» (DA 268). Sendo modelo de Igreja, como sempre olhamos para Maria – afinal, nosso compromisso de consagrados nos conduz à imitação de suas virtudes –, a Santíssima Virgem nos remete ao modelo do amor trinitário que une Pai, Filho e Espírito Santo, cujo dom deve ser refletido na Igreja e comunicado por ela, para que todos, sob o olhar materno de Mãe de Deus, se sintam filhos e irmãos, discípulos e missionários (DA 524).

Por isso, o mistério da Trindade que se revela em Maria não pode deixar de ser aprofundado, sob pena de não compreendermos as atitudes de Maria e, por conseguinte, não sermos dela os imitadores que devemos ser.

Citando o documento Lumen Gentium, do Concílio Ecumênico Vaticano II, os Bispos reunidos em Aparecida afirmam: «O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja: “um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito”, chamado em Cristo “como sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”» (DA 155). E citando o Documento de Puebla, os Bispos sustentam que «somos chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, pois “a evangelização é um chamado à participação da comunhão trinitária”» (DA 157).

Desse mistério Maria teve uma participação decisiva. Nela o mistério se realiza plenamente. Dizem os Bispos que «um dos eventos fundamentais da Igreja é quando o “sim” brotou de Maria» (DA 268). E que o “sim” de Maria, quando repetido pelo discípulo, «compromete radicalmente a liberdade» (DA 136), ou seja, a resposta de amor que brota no coração do discípulo é igualmente única e decisiva, de quem tem a consciência de que apenas o vínculo de amor com a Trindade nos faz, de fato, parecidos com o Mestre.

Nesse sentido, quando olhamos para a Mãe de Jesus, o que vemos senão a própria imagem da Trindade divina presente em seu ser? De fato, a Virgem Maria é «a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo», recordando-nos que «a beleza do ser humano está toda no vínculo do amor com a Trindade» (DA 141), vínculo este que será pleno, se também em nós a resposta brotar positiva em nosso coração.

Em Maria o amor misericordioso do Pai é visível. É o próprio Cristo, encarnado pela ação do Espírito Santo. Assim, se somos chamados a sermos discípulos missionários, não pode nossa missão ser diferente da missão assumida por Maria. Por isso, com muita propriedade o Documento de Aparecida afirma que «o discípulo missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores» (DA 147). Esta é a exigência de um verdadeiro encontro com Jesus, estabelecido «sobre o sólido fundamento da Trindade-Amor» e que tem o ponto de partida na experiência batismal com a qual nos tornamos cristãos (DA 240). Ser cristão não é uma idéia, como bem observa o Papa Bento XVI em sua primeira encíclica Deus Caritas Est, mas um encontro com Cristo.

O amor trinitário, portanto, como fundamento de uma autêntica espiritualidade cristã, nos remete a uma concepção renovada de santidade, presente no Documento de Aparecida, cujo caminho a ser percorrido está no coração do mundo, para onde o discípulo que a busca é obrigatoriamente conduzido (DA 148).

E Maria, portadora do amor trinitário, nos educa com sua atitude acolhedora, a fim de que também nós sejamos modelo de Igreja acolhedora, capaz de criar no mundo a comunhão que educa para um estilo de vida compartilhada, solidária e fraterna (DA 272). Nessa pedagogia mariana, não podemos nunca nos esquecer que a comunhão da Igreja «se sustenta na comunhão com a Trindade» (DA 155), cujo mistério «nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença» (DA 451).

Maria nos ensina que a Trindade «é a fonte mesma de amor e da vida», pois não há resquício algum de conflito em decorrência da diversidade de Pessoas que a habita (DA 543). Ao contrário, em Maria a comunhão de amor de Pai, Filho e Espírito Santo a transforma no modelo perfeito a inspirar toda a humanidade. Por isso mesmo, exprimem os Bispos que na «comunhão de amor das três Pessoas divinas, nossas famílias têm sua origem, seu modelo perfeito, sua motivação mais bela e seu último destino» (DA 434).

Eis uma das razões pelas quais acredito que a espiritualidade mariana seja um caminho que nos transforme em autênticos discípulos de Jesus e missionários a serviço do Reino de Deus, a exemplo de Maria, e que me faz também acreditar, com toda a Igreja da América Latina e do Caribe, que «esta visão mariana da Igreja é o melhor remédio para uma Igreja meramente funcional ou burocrática» (DA 268).



Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte IV

Buscamos demonstrar, na terceira parte deste estudo, que toda a espiritualidade vivenciada por Maria tem por fonte e fundamento o amor trinitário. Com propriedade o Documento de Aparecida afirma que em Maria «encontramo-nos com Cristo, com o Pai e com o Espírito Santo, e da mesma forma com os irmãos» (DA 267).

Nunca é demais repetir as palavras insertas no Documento de Aparecida, quando afirma que Maria é «a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo» (DA 141).

De plano se percebe que, ao falarmos de espiritualidade mariana, estamos nos referindo à espiritualidade centrada em Cristo e vivenciada por Maria desde a sua imaculada conceição. De sorte que a conformação de Maria ao projeto trinitário é elemento revelador da pessoa de Jesus.

E quem é Jesus Cristo?

A primeira resposta a essa pergunta é uma manifestação de fé: «Jesus é o Filho de Deus, a Palavra feito carne (cf. Jo 1,14), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, prova do amor de Deus aos homens» (DA 102). «Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria», afirmam os bispos (DA 18). E não poderia ser diferente, visto que é na fé que acontece o encontro com Cristo, nos mais diversos ambientes em que é vivida.

Nesse sentido, afirma ainda o Documento de Aparecida que Maria é para nós escola de fé (DA 270). Em um ambiente desfavorável e hostil, tornou-se peregrina da fé desde o momento em que, sem nada compreender, disse sim a Deus. Foi pela atitude de fé que Maria pode contemplar, antes de qualquer outro, o rosto humano de Deus em seu filho.

A segunda resposta à indagação, porém, nos remete a uma segunda pergunta, que é chave para a plena compreensão da pessoa de Jesus Cristo: o que fez Jesus? Diz o Documento de Aparecida que a vida de Jesus «é uma entrega radical de si mesmo a favor de todas as pessoas, consumada definitivamente em sua morte e ressurreição» (DA 102), indicando que a compreensão de sua pessoa somente é possível se houver compreensão de sua prática, de seu agir.

A cristologia do Documento de Aparecida se apresenta, dessa forma, como um convite, um chamado, uma convocação, um apelo ao seguimento de Jesus Cristo. E seguir Jesus Cristo implica numa total conformação ao projeto trinitário do amor que, por sua vez, exige do discípulo uma tomada de atitude, fundada na liberdade, que o conduz à total configuração com a pessoa do Mestre, o que implica em assumir a centralidade do mandamento do amor e a prática das bem-aventuranças do Reino (DA 139).



Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte V

Ao demonstrarmos, na quarta parte deste estudo, que a espiritualidade mariana tem como fundamento o amor trinitário, buscamos evidenciar que o caminho trilhado por Maria se revela como o itinerário mais seguro para o encontro com seu filho Jesus. Isso porque não é possível seguir os passos de Maria sem a presença de Jesus, pois um só é o caminho. Seguramente onde caminha Maria são visíveis as pegadas de Jesus.

É na caminhada que Maria ajuda a construir a espiritualidade que vai dar sustentação à comunidade apostólica que se forma a partir dos inúmeros encontros das pessoas com Jesus. Nada mais certo e profundo são as palavras do evangelista: «Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração» (Mt 2,19).

Eis aí, Maria peregrina praticando os exercícios espirituais!

O discernimento de Maria, a partir de suas meditações, lhe credencia ao papel que mais tarde o próprio Jesus lhe confiaria, ao pé da cruz. De sorte que, ao aceitar o convite de Deus-Pai para ser a mãe do Deus-Filho, predestinou-se pela ação do Deus-Amor a ser a mãe de todos os filhos de Deus.

A missão confiada a Maria revela, pois, a essência cristológica da Igreja, que também é Mãe. E Maria cumpriu com fidelidade seu papel, assegurando e assistindo o nascimento da Igreja: «Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus» (At 1,14). É a partir desse momento que Pedro, iluminado pela ação do Espírito Santo, põe-se a falar ao grupo aí reunido, anunciando (testemunhando) o Evangelho que Jesus transmitiu e, zeloso, buscando recompor a comunidade para resguardar a base eclesial (cf. At 1,15-22; 2,14-36).

Anunciar o Evangelho do Reino da Vida é, sem dúvida, o mais forte dos elementos da cristologia assumida pelo Documento de Aparecida, fazendo inserir na Igreja o propósito de Jesus em fazer que todos sejam seus discípulos. A simbologia presente no segundo capítulo de Atos (At 2, 1-13) mostra bem como esse propósito foi assimilado pelas primeiras comunidades. Lucas, quando escreve, tem consciência do que está na base de toda e qualquer comunidade cristã: o testemunho de Jesus, que o Espírito Santo suscita para que seja sempre lembrado, compreendido e vivenciado. E o Documento de Aparecida quer resgatar essa mesma espiritualidade que nos faz seguidores do Messias.

E a presença materna de Maria é a inspiração para que as comunidades «de todas as nações do mundo» (At 2,5), a exemplo daquelas comunidades que formavam a Igreja primitiva (At 2, 9-10), sejam testemunhas do Reino da Vida e falem uma só língua, a língua do amor, da nova Aliança, do Evangelho. Como Mãe da Igreja, Maria torna-se paradigma da humanidade e modelo de toda a espiritualidade cristã, «é ela quem brilha diante de nossos olhos como imagem acabada e fidelíssima do seguimento de Cristo» (DA 270).

É chegada a hora de Maria!



Espiritualidade Mariana no Documento de Aparecida – Parte VI

Há uma preocupação dos bispos reunidos em Aparecida, que reflete a inquietação da Santa Sé, quanto ao modelo eclesiológico a ser infundido à Igreja latino-americana e caribenha a partir das conclusões da conferência. A inquietação, saliente-se, tem como causa o profetismo que marcou os documentos de Medellín e Puebla, deixado de lado no documento de Santo Domingo, que optou pela reflexão sobre a nova evangelização, a promoção humana e a cultura cristã.

Não por acaso os bispos elegeram, dentre as sombras presentes na Igreja, «algumas tentativas de voltar a um certo tipo de eclesiologia e espiritualidade contrárias à renovação do Concílio Vaticano II» e «algumas leituras e aplicações reducionistas da renovação conciliar» (DA 100,b).

No Documento de Aparecida há uma clara orientação episcopal para a retomada de alguns temas proféticos, mas sem o sopro libertador que marcou as décadas iluminadas pelas chamas dos documentos precedentes.

Evidentemente que estamos experimentando uma mudança significativa no modelo eclesiológico em nosso continente, e o novo rosto da Igreja traz a marca do episcopado que, de uma ou outra forma, conduziu ou influenciou o processo que culminou na elaboração das conclusões da Quinta Conferência.

A principal consequência desta constatação é a descoberta de que a eclesialidade está definitivamente vinculada à Igreja Particular (Diocese). Como expressamente afirmam os bispos, «a Igreja Católica existe e se manifesta em cada Igreja particular, em comunhão com o Bispo de Roma» (DA 165), sendo «a realização concreta do mistério da Igreja Universal em determinado lugar e tempo» (DA 166), de sorte que não se pode ser membro da Igreja Universal sem que esteja inserido na Igreja Particular.

Definida a Igreja local como a principal referência de eclesialidade no Documento de Aparecida, o que se pode abstrair das conclusões da conferência é o fortalecimento da liderança dos bispos, sendo este o paradigma escolhido para reger a nova eclesiologia, baseada principalmente na contraposição clero versus laicato, ainda que se fale efusivamente da importância dos leigos e suas atividades evangelizadoras no mundo.

Depreende-se, portanto, que a perspectiva eclesiológica do documento é retomada a partir das diretrizes traçadas pelo Concílio Vaticano II, com os acréscimos produzidos pela Teologia pós-conciliar a respeito das noções de comunhão e missão.

Como já tivemos oportunidade de refletir, na terceira parte deste estudo, a concepção de comunhão eclesial no Documento de Aparecida está fundamentada na comunhão trinitária, como afirmam os bispos: «A comunhão dos fiéis e das Igrejas locais do Povo de Deus se sustenta na comunhão com a Trindade» (DA 155). Quanto à concepção de missão, o Documento de Aparecida expressa de forma cristalina que a missão da Igreja é «proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo» (DA 30).

Os bispos admitem, porém, que para bem cumprir a sua missão a Igreja precisa de uma profunda e constante renovação em suas estruturas, devendo ser abandonadas aquelas «que já não favoreçam a transmissão da fé» (DA 365).

Quando se fala em conversão de estruturas, penso sempre no modelo.

Se voltarmos nossos olhos para a Mãe, veremos nEla o protótipo ideal de Igreja: acolhedora, solícita (visita a Isabel), profética (Magnificat), modelo de liderança (Bodas), atenta às necessidades de sua gente...

Nossa Senhora é bem mais que um ícone de devoção, e deveríamos voltar a Ela nossos olhos para entendermos o que Jesus quer de nós. Nossa conversão, que deve nortear a conversão das estruturas ultrapassadas a que aludem os bispos, passa por um olhar mais atento para Maria, sendo este «o melhor remédio para uma Igreja meramente funcional ou burocrática» (DA 268).

Creio ser este o tempo da Mãe de Deus. Não é por acaso que a quinta conferência foi realizada em Aparecida, um dos maiores santuários marianos do mundo.

Que nossos bispos, «servidores do Evangelho» (DA 186) empenhados em «apresentar ao mundo o rosto de uma Igreja na qual todos se sintam acolhidos como em sua própria casa» (DA 188), aprendam de Maria a verdadeira pedagogia da evangelização, fazendo tudo o que Jesus diz (Jo 2,5).

E que nós, batizados, saibamos reconhecer a Presença do Senhor em nossos pastores, para que junto com eles saiamos «para comunicar a todos a vida verdadeira, a felicidade e a esperança que nos tem sido dada a experimentar e a nos alegrar» (DA 549).

Ad Jesum per Mariam!

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